Material para a 2ª Formação de Estagiários

 

No dia 13 de Abril de 2012, decorreu no IPJ uma acção de formação sobre a temática "Violência no Namoro". Esta formação foi conduzida pelos estagiários dos vários GAAF , na qual seriam apresentados formas de expor esta temática aos alunos do 9º ano do 3º ciclo do Ensino Básico. Como forma de exposição de materiais e exemplos de possiveis formação para este público-alvo, foram apresentadas dinâmicas de grupo, nomedamente o debate sobre as crenças e mitos ainda hoje presentes na nossa sociedade, a construção de uma história como fotografias sobre o impacto da intergeracionalidade na violência no namoro e a apresentação de poster interactivo de divulgação, alerta e sensibilização dos últimos e por fim foi feita um debate entre os presentes na formação com recurso à partilha de experiências e fundamentos teóricos.

Assim sendo, com esta formação compreendi que as poucas investigações feitas sobre a violência no namoro mostraram a necessidade de se fazer a prevenção e intervenção entre os jovens, uma vez que ainda hoje esta temática parece marginalizada nos discursos de teor social e educativo se formos comparar com a violência no matrimónio. Os factores que condicionam a falta de divulgação na violência no namoro são devido às dificuldades associadas à sua definição e de acesso ao público-alvo que lhe é mais característico; à ausência de um estatuto considerado legal, autónomo e alusivo à violência fora do contexto do matrimónio.

Ainda como controvérsias surge as questões de género, nomeadamente quanto à sua prevalência e distribuição porque não se fazem diferenciações significativas. Contudo, apesar de não se fazer uma distinção, apresenta-se uma maior percentagem de agressão a mulheres.

No que diz respeito às formas de violência, estas podem ir desde insultar, difamar, humilhar, ferir, gritar, ameaçar com a intenção de meter medo ou mesmo danificar objectos que um membro do casal atribua um valor especial. Ainda neste contexto surgem os factores de risco que se encontram associados, podendo ser neste caso a presença de violência na família por ser um preditor directo no impacto; a dinâmica relacional quanto as assimetrias de poder entre os pares; o isolamento imposto pelo parceiro durante o namoro e a falta de experiência relacional.

À luz de uma perspectiva intergeracional e da teoria da aprendizagem social de Bandura; o comportamento do indivíduo é determinado pelo ambiente social e emocional onde se insere; pelos membros da família (mecanismos de reforço; imitação por observação/modelagem ou coação) e pela sua própria personalidade. Deste modo, o impacto da família é visto como um meio viabilizador de comportamentos nos seus membros, podendo levá-los a interiorizar valores ideológicos e sociais que promovem nas suas condutas. No entanto, alguns estudos revelam que este impacto poderá afectar de maneira diferente os rapazes e raparigas.

Partindo da diferença do impacto por género, é possível dizer que num pressuposto desenvolvimental, a rapariga promove-se, usualmente, de uma maneira mais emocional em comparação em comparação com o rapaz, uma vez que o último promove-se de um modo mais autónomo. Este indicador da emoção poderá destacar-se nas experiências de vida e na forma de gerir as suas relações.

Na forma de gerir as relações amorosas, surge por vezes a confusão de violência versus amor. É na fase da adolescência que se evidencia mais uma consolidação em aceitar a violência como manifestação de amor ou aspectos que consideram ser “aceitáveis” em certas circunstâncias ou mesmo a própria adesão a alguns mitos, como por exemplo a associação romance-sofrimento.

Em relação à constatação das vítimas e agressores, nomeadamente sobre o impacto das crenças e estereótipos, ambos adoptam atitudes de desvalorização, o que evidencia uma certa reciprocidade entre as suas atitudes e comportamentos. Em alguns estudos feitos sobre esta temática identificou-se que os jovens atribuem parte da responsabilização à vítima por motivos de provocação e personalidade e promovem a desculpabilização do agressor. Estas crenças podem ser entendidas como estereótipos ou tradicionalismos que, ao negarem ou normalizarem a situação, podem levar ao não reconhecimento da dimensão criminal e a uma não intervenção. Torna-se por isso importante desmitificar e debater estas crenças ou mitos como forma de melhor a intervenção nesta área.

Posto isto, e no que diz respeito à prevenção, surge assim a urgência em promover, nas relações juvenis, a aquisição de conhecimentos sobre o fenómeno; de reconhecer estas situações; de criar mudanças socio-culturais que as sustentam; de desenvolver competências para gerir estas situações e de informar sobre os recursos das comunidades. Posto isto, como modelos de prevenção existe as de dimensão adaptável, nomeadamente a primária, na qual se trabalha com jovens que não tiveram contacto com esta realidade, a fim de os ajudar a permanecer nesta condição; a secundária, na qual se trabalha particularmente com os jovens que se encontram em risco de integrar esta realidade e terciária, onde se trabalha com jovens que encontram-se expostos a esta realidade ou que desejam interromper esse comportamento. Por outro lado, a intervenção também pode ser feita com base numa dimensão mais ampla, nomeadamente através do desenvolvimento de políticas de cariz governamental, comunitária e institucional que estimulem as relações e cooperação entre géneros e que ao mesmo tempo promovam a autonomia, a resiliência e a resolução mais eficaz de conflitos.

De acordo com uma dimensão atitudinal, os programas preventivos sobre a violência nas relações amorosas existentes tem como propósito mostrar aos jovens a gravidade da violência e ajudá-los a construírem comportamentos não violentos na intimidade; tentam diminuir a probabilidade de se tornarem futuros agressores ou vítimas ; promovem factores protectores e tentam reduzir os factores de risco; divulgam a sua iniciativa em campanhas e anúncios publicitários e intervem principalmente em comunidades escolares ou desfavorecidas para aumentar e igualmente contribuir para o conhecimento ligado às capacidades adquiridas que consigam produzir mudanças comportamentais ou de atitude face a esta realidade. Isto é, a expectativa destes programas é esperar que os jovens passem a mostrar comportamentos relacionais não violentos e que em simultâneo consigam ajudar os que se encontram envolvidos nesta realidade.

Desta maneira, surge por isso a necessidade de recorrer a abordagens multifactoriais que combinem diferentes estratégias e ao mesmo tempo intervir ao nível das atitudes e crenças face ao fenómeno. Como estratégias pode ser a resolução de conflitos, o treino de competências sociais, recriar actividades (role-play) , por campanhas de sensibilização, por programas educacionais com sessões didácticas em sala de aula e que envolvam os professores e por actividades que envolvam os pais ou Encarregados de Educação ou mesmo os pares e de promoção de mudanças culturais ou tradicionais em casa ou na escola. Contudo, ocorrem algumas limitações devido à ausência de fundamentação de auxílio à construção de programas, o que dificulta a avaliação do respectivo impacto e a extracção de conclusões sobre a eficácia dos mesmos.

No caso de Portugal, as acções de prevenção e intervenção são praticamente inexistentes, e ,por isso, é urgente desenvolver em investigações que incidam neste fenómeno e ampliar as já existentes, a fim de envolver diferentes modelos de prevenção e metodologias inovadoras ,estimular os esforços em articulação com as escolas, comunidade e família e investir na formação dos agentes educativos para a criação de momentos de reflexão e interacção com apoio especializado.



P.S - Reflexão feita coma minha Síamesa , como nos chamam, Ana Filipa